xampu: desde quando?

gif de xampu

bons tempos em que só tinha um xampu na prateleira…

já reparou na quantidade de xampus e condicionadores nos corredores de mercados e farmácias? fora aqueles que a gente só consegue comprar em salões de beleza, no exterior ou online. tem xampu pra cabelo claro, escuro, branco, tingido, liso, ondulado, cacheado, oleoso, seco, misto, normal, com óleo de não sei o que, proteína não sei das quantas, pra diminuir fiapinhos, pra neném, criança, adolescente e adulto, pra deixar o cabelo macio, brilhante, pra fazer crescer, pra dar volume, pra diminuir o volume, pra reparar, pra nutrir, pra “purificar a raiz”, com sal, sem sal, com parabeno, sem parabeno, com sulfato, sem sulfato, com corante, sem corante, pra “detox capilar”, pra não cair, pra não ter caspa, xampu a seco, xampu com cheiro de fruta, de ervas, de flor, de xampu… e outro dia vi até um tal de pré-xampu!

e quem foi que disse que sempre foi assim? quando eu era criança, acho que só existiam xampus pra cabelos secos-oleosos-normais e, no máximo, um de camomila pra quem queria clarear. condicionador? nenhum, o que tinha era creme rinse!

omg im so retro

já experimentou perguntar aos seus parentes mais velhos como eles lavavam os cabelos na infância? ano passado, perguntei aos meus pais e a resposta dos dois foi: com sabonete. pode até parecer que eles têm uns 200 anos de idade, moravam nos cafundós de mg e eram muito humildes, né? mas não: eles têm 67 e 65 anos, nasceram e sempre viveram em bh e são, os dois, de famílias de classe média. eles lavavam os cabelos com sabonete porque não tinha xampu até década de 1950/60 no brasil (ou, pelo menos, aqui em bh)! segundo eles, parece que o primeiro que apareceu por aqui foi o johnson’s, mas não encontrei esse dado online pra confirmar.

xampu é uma palavra boa de falar, né?  xam-pu. ela tem origem na índia: a palavra hindi chāmpo é a forma imperativa do verbo chāmpnā, que significa “pressionar, amassar os músculos”. na era colonial, os ingleses a adotaram, mas só em 1860 foi registrado seu uso com o significado de “lavar os cabelos”.  mas isso não quer dizer que as pessoas não lavavam a cabeça antes de 1860, é claro. a wikipedia diz que desde a antiguidade vários povos usavam ervas e seus extratos como xampu: índia, indonésia (queimavam a casca e a palha do arroz e misturavam essas cinzas com água pra fazer espuma), américa do norte (os nativos usavam o extrato de uma espécie de samambaia) e do sul (na região andina, usavam a água da lavagem da quinoa). no brasil, parece que os índios usavam pó de juá (o fruto do juazeiro).

how to shampoo the hair - new york times, 1908

trechinho de matéria do new york times em 1908, ensinando a usar xampu (na verdade, sabão a base de azeite de oliva) pra cuidar dos cabelos.
(clique na imagem para ver a matéria completa)

os europeus, depois que tiveram contato com os indianos e descobriram que lavar a cabeça com mais do que só água era uma coisa muito legal, passaram a ferver sabão ralado e ervas. os xampus só começaram a ser produzidos e comercializados na europa na virada para o século XX e eram em barra, como os sabões. a forma líquida não tem nem 100 anos: foi inventada em 1927, na alemanha. e o primeiro xampu sintético, mais parecido com os que encontramos hoje em dia, só apareceu na década de 1930!

e aí, deduzi que minhas avós e as irmãs e mães delas também lavavam os cabelos com sabão. se você tiver acesso a fotos da sua avó na juventude, repare no penteado e no estado do cabelo dela. é impressionante imaginar, depois de crescermos achando que xampus, condicionadores e cremes existem desde sempre, que é possível ter um cabelo lindo – e, principalmente, saudável – sem usar milhares de produtos específicos que nos fazem acreditar ser indispensáveis à nossa vida.

vó célia

minha avó célia (<3) e seu cabelo ondulado, por volta de 1940

o brasil é o terceiro colocado no mercado mundial de cosméticos, atrás só dos eua e da china, e é o segundo lugar em vendas de produtos para os cabelos (o primeiro é a china). em 2013, fomos o país que lançou mais produtos para cabelos no mundo. estima-se que em 2019 o mercado mundial de xampus alcance o valor de 25,73 bilhões de dólares. é facinho perceber que vão continuar tentando nos convencer de que precisamos encher nossos boxes com aquele monte de potes…

acontece que os xampus comerciais não necessariamente são bons para a saúde dos nossos cabelos. eles funcionam como detergentes bem agressivos: tiram do couro cabeludo o óleo naturalmente produzido pelo nosso corpo, ressecando o cabelo. e aí, são adicionadas mais substâncias aos xampus para mascarar todos os efeitos negativos dos outros ingredientes e ainda temos que usar condicionador no fio pra melhorar seu aspecto. é só reler os números do parágrafo anterior pra entender que se trata de um círculo intencionalmente vicioso.

além disso, boa parte das substâncias químicas utilizadas na formulação desses produtos é tóxica para nosso organismo e para o meio ambiente. ainda tem a questão das embalagens, que geralmente são de plástico. vou deixar pra falar mais disso em outro post, porque esse aqui já ficou bem grandinho. mas deixo um pequeno spoiler pra quem tá se perguntando “será que tem saída?“: tem sim!

semana lixo zero – v fórum internacional varejo lixo zero (parte 4/4)

hoje termino a série sobre o v fórum internacional varejo lixo zero, que aconteceu no dia 27/10/2015 em floripa. as duas apresentações finais foram as menos interessantes, mas depois delas o microfone foi aberto ao público e surgiram algumas boas discussões, que eu conto ainda neste post:

8) leslie lukacs, estados unidos, l2 environmental

leslie é da califórnia e tem uma empresa de consultoria em gerenciamento de recursos, lixo zero e meio ambiente. ela falou praticamente o tempo inteiro sobre o sucesso das ações do angeloni e em como a experiência da acats com o programa supermercado lixo zero é exemplo em palestras que ela dá nos estados unidos.

além disso, destacou que no brasil nós temos o costume de esperar que o governo resolva as coisas por nós, e que podíamos aprender a não dependermos tanto dele para dar início a atitudes importantes para o meio ambiente e nosso cotidiano. não deveríamos, por exemplo, esperar uma lei que multe quem não separa o lixo adequadamente para começarmos a utilizar corretamente as lixeiras de recicláveis ou fazermos compostagem em casa. nesse ponto, concordo com ela. e você?

 

9) rodrigo sabatini, brasil, instituto lixo zero brasil

rodrigo começou sua apresentação falando sobre o papa francisco e o impacto positivo que a encíclica sobre o meio ambiente, publicada em junho deste ano, pode causar no mundo. mas confesso que, enquanto o rodrigo falava sobre o quanto é católico e em como o papa é fenomenal, me distraí um pouco. de qualquer maneira, mesmo não sendo religiosa, considero muito significativo que finalmente a igreja católica tenha se manifestado sobre o assunto e espero, de verdade, que a encíclica possa ajudar na conscientização de mais gente no mundo.

em seguida, rodrigo passou a falar sobre como florianópolis tem se destacado na preocupação com a destinação do lixo e citou a que cidade tem a maior concentração de campos de compostagem no brasil. ele também falou rapidamente sobre o projeto lixo zero do colégio catarinense, um dos mais tradicionais de floripa. seria tão legal se mais colégios no brasil adotassem projetos como esse… procurei rapidinho no google e parece que são poucos os exemplos (infelizmente, não encontrei nenhum em bh), mas acho (espero!) que aos poucos a quantidade vai aumentar :)

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alguns palestristas do fórum respondendo às perguntas. da esquerda para a direita: steven chiv, gilberto nascimento, sandra nordstrom, rodrigo sabatini, andré vilhena e leslie lukacs.

alguns palestristas do fórum respondendo às perguntas. da esquerda para a direita: steven chiv, gilberto nascimento, sandra nordstrom, rodrigo sabatini, andré vilhena e leslie lukacs.

quando o rodrigo terminou sua fala, o microfone foi aberto para que o público fizesse perguntas. não fiquei até o final, mas anotei duas coisas que achei mais interessantes:

  • alguém questionou que se diminuíssemos o consumo de novos produtos, muita gente ficaria desempregada. a resposta: não é bem assim, porque seria criado um novo mercado de serviços, com pessoas e empresas especializadas em consertar e dar nova utilidade para objetos que pararam de funcionar ou que, por algum outro motivo, não cumprem mais sua função inicial. a pessoa que respondeu (não me lembro quem foi) reforçou a necessidade de mudarmos nossa mentalidade e pararmos com essa mania louca de comprar novidades sem parar. em algum momento, a sandra nordstrom (the good tribe) deu o exemplo de um serviço de utilização de roupas de luxo que existe na suécia e funciona mais ou menos como o netflix: a pessoa paga uma mensalidade e tem direito a utilizar roupas do acervo da empresa por um período determinado. algo como as lojas de aluguel de roupas de festa que existem no brasil, mas para pessoas que utilizam essas roupas com mais frequência. o rodrigo sabatini também falou que a philips está fazendo uma experiência com a venda não de lâmpadas, mas de serviço de iluminação.
  • uma pessoa questionou ao gilberto nascimento (angeloni) por que eles não vendem mais frios a granel, já vem tudo fatiado em embalagens fechadas e pesadas. a cristal, do um ano sem lixo, também já tinha abordado essa questão antes, mas falando especificamente sobre a dificuldade em se encontrar produtos líquidos para compra a granel. uma pessoa que estava atrás de mim se irritou muito com essas colocações, dizendo que a legislação brasileira não permite que tudo seja vendido a granel, e que os supermercados não têm culpa disso. só faltou dizer que a culpa era da dilma. mas o gilberto foi mais paciente e explicou o que acontece: se as pessoas pararem de comprar as embalagens de frios já fatiados e exigirem a venda a granel, os supermercados vão se virar pra atendê-las. ele falou claramente: quando o consumidor começar a dizer NÃO a algo, os supermercados vão deixar de agir daquele jeito ou de vender aquele produto. é uma questão de tendência de comportamento, e o consumidor tem que exigir o que quer. só assim os comerciantes vão mudar suas atitudes e cobrar dos políticos mudanças nas leis atuais. é aquela coisa: se dói no bolso, a coisa muda de figura.

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mas é claro que nem tudo foi perfeito no fórum. eu realmente tinha a expectativa de que não se tratasse só de falas sobre o lixo zero, mas de exemplos práticos, e estava doida pra ver como seria um evento organizado de forma a não produzir lixo. enquanto ia pra lá, fiquei viajando em como seriam os lanchinhos entre os intervalos, coisas desse tipo. até que veio a realidade. já na entrada, nos entregaram uma pastinha com material impresso:

material entregue a cada participante do fórum

material entregue a cada participante do fórum: precisava de tudo isso?

podiam mandar quase tudo por email, né, e entregar, no máximo, só o bloquinho e a caneta. quanto ao lanchinho, também decepcionou: café e água eram tomados em copos de isopor, que provavelmente foram direto pro aterro, já que o material só interessa às empresas de reciclagem em grandes quantidades. entre os papeis entregues na pastinha havia uma folha para avaliação do evento, então aproveitei pra deixar essas críticas. espero que nas próximas edições os organizadores procurem aplicar o lixo zero pra mostrar aos participantes que essas pequenas ações também importam muito.

mas fiquei muito feliz com a coincidência de estar em floripa bem no dia desse evento, porque, como já disse, foi muito melhor do que eu esperava. conheci iniciativas muito, mas muito legais, vi pessoas, empresas e governos que têm se empenhado em alcançar o objetivo de não enviar lixo para aterros e ainda conheci a cristal :)

pra quem quiser ver um resumo do evento, encontrei no youtube um vídeo promocional feito pela própria acats, que promoveu o fórum. tem menos de cinco minutos. e dá pra brincar de onde está wally e me procurar!

semana lixo zero – v fórum internacional varejo lixo zero (parte 3/4)

depois do painel (do post de ontem), teve um intervalo para almoço. levei minha mãe pra conhecer o kulturas, restaurante vegetariano (ovolacto) a quilo que funciona na praça de alimentação do top tower, um prédio comercial no centro de floripa. chegando lá, perguntei se tinha alguma coisa vegana entre os pratos quentes e veio a surpresa: só a polenta não era, dava pra eu escolher entre várias opções! a comidinha de lá é muito bem feita, foi um almoço delicioso <3

voltando ao fórum, as duas apresentações seguintes foram de estrangeiros, que contaram experiências relacionadas ao lixo zero em seus países:

6) steven chiv, estados unidos, san francisco department of environment

steven trabalha na secretaria municipal de meio ambiente em são francisco, na califórnia, e iniciou sua apresentação esclarecendo que lixo zero significa não à incineração e não aos aterros e sim ao “reuse, reduce, recycle, o que inclui a compostagem. um dado muito interessante apresentado por ele: os centros de triagem de materiais para reciclagem criam 7 vezes mais empregos que os aterros, ou seja, são bons tanto para o meio ambiente quanto para economia.

em 1989, foi criada na califórnia uma lei que definiu o objetivo de reduzir em 50% o volume de resíduos enviados para os aterros, aumentando a reciclagem e a compostagem. para os aterros, vai o que é considerado lixo mesmo, aquilo que não é reciclável, reutilizável nem compostável. depois de mais de uma década de esforços, o objetivo foi alcançado em 2006 e, desde então, o estado adotou a meta do lixo zero, em parceria com prefeituras, indústrias e o público.

em são francisco, a questão do lixo é um problema tratado com seriedade. no ano 2000, 900.000 toneladas de resíduos foram enviadas para o aterro local. em 2002, foi estabelecido o objetivo de se chegar ao lixo zero e não enviar nada para aterros em 2020. nada fácil, mas a cidade tem se esforçado para cumprir a meta, adotando várias medidas, que podem ser vistas aqui. em 2009, entrou em vigor uma lei (mandatory recycling and composting ordinance) segundo a qual todos os moradores e empresas da cidade devem separar adequadamente os resíduos recicláveis e compostáveis, para não enviá-los ao aterro municipal. quem não cumpre a lei pode pagar uma multa.  em 2013, foram enviadas 400.000 toneladas, uma redução de 55% em quatro anos!

lixeiras utilizadas para separação do lixo em são francisco: verde (compostáveis), azul (recicláveis) e preto (para o aterro)

lixeiras utilizadas para separação do lixo em são francisco: verde (compostáveis), azul (recicláveis) e preto (para o aterro)

outras medidas interessantes que foram adotadas em são francisco:

  • o incentivo para utilização de materiais de construção recicláveis;
  • a obrigatoriedade da utilização de sacolas de plástico compostável, papel reciclável e/ou sacolas reutilizáveis e a cobrança mínima de dez centavos por cada sacola em todos os estabelecimentos comerciais da cidade;
  • a proibição do uso de isopor como utensílios no comércio de alimentos, e a obrigatoriedade de que os utensílios descartáveis sejam compostáveis ou recicláveis;
  • a cobrança de 20 centavos por pacote de cigarros em são francisco, para cobrir custos com limpeza de bitucas nas ruas, calçadas e outros espaços públicos da cidade;
  • a obrigatoriedade de bebedouros em novas construções, para que as pessoas possam encher suas garrafas de água;
  • a proibição das secretarias municipais utilizarem recursos públicos para comprar água engarrafada.

steven terminou sua fala dizendo que o objetivo de todas essas medidas é fazer com que os novos hábitos, como a separação do lixo para reciclagem, o uso de sacolas reutilizáveis e de copos não descartáveis, por exemplo, se transformem em coisas normais para as pessoas em são francisco. no começo pode ser um susto, muita gente pode reclamar, mas quando se torna um hábito mesmo, a gente vê que é bem mais simples do que parece e é bom pra todo mundo :)

 

7) sandra nordstrom, suécia, the good tribe

sandra é antropóloga social, bastante simpática, e falou coisas bem interessantes em sua apresentação, que começou com a seguinte frase:

waste is what’s left when imagination fails“* – sandra nordstrom

*”desperdício é o que sobra quando a imaginação falha”. faz pensar, né?

ela lembrou a todos que o lixo não existe na natureza: é um conceito que foi criado pelos humanos e, portanto, pode ser eliminado. para isso, basta que a gente adote uma nova maneira de pensar. as regras da nossa sociedade também foram inventadas, assim como a economia, que todos consideramos algo natural. não é. e, então, sandra falou sobre os padrões de consumo em países como eua e suécia e como isso tem exaurido os recursos naturais do planeta, além de provocar altos níveis de poluição e mortalidade e extinção de espécies.

sandra destacou a necessidade de repensarmos o modo como vivemos e de buscarmos alcançar o lixo zero e a implantação de uma economia circular. existe muita resistência em relação a isso, mas é o que acontece com qualquer grande inovação, de acordo com ela. há uns 200 anos quem falava em voar era considerado doido e hoje o avião é algo completamente normal no nosso cotidiano.

a partir daí, sandra deu exemplos de ações que grandes empresas têm feito em relação à sustentabilidade. fico muito com o pé atrás quando vejo divulgação de notícias “verdes” de qualquer empresa de grande porte, porque em muitos casos são só maquiagens, ações que não fazem nem uma cosquinha sustentável perto dos estragos (ambientais e sociais) provocados por elas. sandra falou sobre a h&m que, junto com outras empresas, está financiando pesquisas sobre reciclagem de tecidos. muito bom, de verdade, que isso esteja acontecendo. mas a h&m… sei não. futuramente, em outro post, vou falar mais sobre a indústria da moda, principalmente a tal da “fast fashion“.

outro exemplo que a sandra deu foi sobre a patagonia, uma marca norte-americana de roupas para esportes ao ar livre, como alpinismo, esqui e surf, muito comprometida com o meio ambiente, segundo ela. no ano passado, por exemplo, a empresa acabou com seu departamento de sustentabilidade, alegando não ser mais necessário, já que todos os seus funcionários deveriam saber sobre o assunto. a patagonia usa material reciclado para produzir as roupas e pretende diminuir a produção em massa. na black friday de 2011, fez uma campanha publicitária com o slogandon’t buy this jacket” (“não compre este casaco”), informando as pessoas sobre os custos ambientais das roupas que produz, com destaque para o R2, casaco que ilustrava a peça gráfica. o texto ainda fala com clareza para que as pessoas não comprem o que elas não precisam e que pensem duas vezes antes de fazer qualquer compra. vale a pena visitar o site da patagonia pra conhecer as ações que eles fazem relacionadas ao meio ambiente. fiquei muito, muito desconfiada de tudo isso, mas dei uma pesquisada no google antes de escrever este post e, aparentemente, a empresa é séria de verdade (além de ter um departamento de marketing bastante eficiente).

"não compre este casaco" (clicando na imagem, dá pra ler melhor o texto)

“não compre este casaco” (clicando na imagem, dá pra ler melhor o texto)

sandra elogiou o angeloni, que consegue reciclar cerca de 65 toneladas de resíduos a cada mês e, assim, economiza 25% dos custos com o gerenciamento do lixo. e ainda deu o exemplo dos supermercados lixo zero, que já são 8 no mundo. eles vendem o que as pessoas querem ou precisam a granel, o que é ótimo: além de reduzir a quantidade de embalagem, ainda evita o desperdício, já que as pessoas podem comprar a quantidade exata de que necessitam.

pra finalizar, sandra falou sobre a “zero waste jam“, um programa da the good tribe, onde ela trabalha. eles perceberam que lá na suécia havia muitas árvores frutíferas nos jardins e quintais de casas e muitas frutas eram desperdiçadas, porque os moradores não se interessavam por todas. então, eles incentivam a doação dessas frutas e fazem geleias com elas. atualmente, refugiados que têm chegado à suécia têm trabalhado na produção das geleias. não me lembro (nem minha mãe) de ter ouvido a sandra falar sobre o que é feito com a renda conseguida com a venda  e não encontrei nenhuma informação sobre isso.

 

ficou grande, hein? mas é que tanto o steven quando a sandra falaram muita coisa que merecia ser contada :)

 

*amanhã, no último post sobre a semana lixo zero, vou falar das apresentações de leslie lukacs e rodrigo sabatini, além de alguns comentários sobre o evento no geral.

semana lixo zero – v fórum internacional varejo lixo zero (parte 2/4)

as três apresentações seguintes do fórum fizeram parte de um painel que foi muito melhor do que o nome pretensioso que deram a ele, “o supermercado como protagonista da cadeia produtiva social”:
3) gilberto nascimento, brasil, angeloni supermercados

programa supermercado lixo zero acatsera um evento para supermercadistas, não tinha como não colocarem alguém do setor pra falar, né? mas acabei me surpreendendo com o que o gilberto apresentou. o angeloni, rede catarinense com 28 lojas em santa catarina e no paraná, em 2011 aderiu ao programa supermercado lixo zero e tem alcançado ótimos resultados.

o programa é uma iniciativa da acats (associação catarinense de supermercados) que, de acordo com o site da entidade, “tem como finalidade assessorar os associados a se adequarem à lei 12.305, ao mesmo tempo em que melhoram seus processos, reduzem custos de gestão com resíduos, ampliam a qualidade dos serviços e adotam uma postura sócio-ambiental, valorizando sua imagem junto ao consumidor e órgãos públicos“. infelizmente, não inclui o consumidor final, ou seja, não diz respeito às embalagens dos produtos e aos milhares de sacolas plásticas que as pessoas utilizam para levar as compras pra casa. é um programa interno, mas cumpre muito bem seus objetivos.

gilberto apresentou números assustadores: o brasil desperdiça cerca de 26,3 milhões de toneladas de alimentos a cada ano, dos quais 13 milhões são jogadas no lixo pelos supermercados. essa situação precisa ser revertida com urgência e por isso a gente tem que parabenizar a iniciativa da acats, em parceria com o instituto lixo zero brasil, de realizar o fórum para conscientizar os empresários da área.

no angeloni, hortifrutis que ainda estão em boas condições de consumo, mas que muitas vezes são rejeitados pelos compradores, que procuram vegetais bonitos, grandes e brilhantes, são doados para programas como o mesa brasil (já vou falar dele), e os que já não podem ser consumidos são doados para compostagem (também falo mais sobre isso neste post). uma coisa bem interessante que o gilberto falou foi que sempre que os funcionários do angeloni são levados para conhecer locais que recebem as doações, o envolvimento com o programa aumenta e a participação chega a triplicar. olha que coisa boa: atualmente, a rede já consegue destinar corretamente cerca de 93% dos resíduos que produz!

fiz uma pesquisa rápida agora no google e não consegui encontrar nenhuma notícia sobre algum supermercado em bh que adote ações relacionadas ao lixo zero. no site da associação mineira de supermercados também não vi nada sobre o assunto. mas em breve, por causa da lei 12.305, todos serão obrigados a se preocupar com isso.

 

4) luciana nascimento, brasil, mesa brasil

mesa brasil sesc

entre janeiro e agosto de 2015, o mesa brasil distribuiu 30.137.819 kg de alimentos!

eu nunca tinha ouvido falar no mesa brasil e fiquei encantada! no começo de sua apresentação, a luciana falou sobre um dado tristíssimo: cerca de 64% do que é plantado no brasil é perdido ao longo da cadeia produtiva. são quase 2/3 do total de alimentos, um absurdo, ainda mais se a gente pensar na quantidade de gente passando fome que existe em todas as regiões do nosso país. luciana reforçou que em santa catarina, que faz parte do chamado “sul maravilha”, também há pessoas que sofrem com a falta de comida.

em seguida, ela falou sobre o mesa brasil, iniciativa do sesc que começou em 1994 em são paulo, foi se espalhando por outros estados e desde 2003 atua em todo país. o programa se baseia no conceito de colheita urbana, em que alimentos ainda próprios para consumo mas fora dos padrões de comercialização são recolhidos pelo sesc e distribuídos para instituições sociais cadastradas, que repassam a famílias necessitadas. as doações são feitas por entidades públicas e privadas, como o angeloni, por exemplo. o sesc conta com profissionais que verificam a qualidade dos alimentos, para que tudo seja feito com muita segurança e sem desperdício.

pelo site do mesa brasil, é possível conhecer mais sobre o programa, acessar notícias relacionadas e se informar sobre como ser voluntário.

o curioso foi que eu, que nunca tinha ouvido falar no programa, no dia em que voltei a bh dei de cara com uma paredona com o logo do mesa brasil ali no começo da contorno, ao lado dos viadutos que ligam o centro à zona norte da cidade. e no sábado (07/11) fui ao supermercado e fiquei sabendo que era o dia nacional da coleta de alimentos, uma iniciativa com apoio do mesa brasil.  exemplo de que é só a gente começar a prestar atenção em uma coisa pra ver que, na verdade, ela sempre esteve ali.

 

5) edison miranda, brasil, olimpo compostagem

edison miranda, olimpo compostagem

edison miranda, fundador do olimpo

outra iniciativa linda linda que conheci no fórum. o edison é enfermeiro especializado no tratamento de dependentes químicos e fundador do olimpo, um sítio que abriga moradores de rua dependentes em tratamento em são pedro de alcântara, pertinho de florianópolis. em 2000, edison implementou a compostagem no olimpo, como uma atividade para auxiliar nas despesas do lugar.

ele disse que em floripa há cerca de 650 moradores de rua, muitos deles dependentes químicos, e que no verão estima-se que a cada dia cheguem outros 30. no olimpo, os dependentes em tratamento são abrigados e trabalham com a compostagem. edison falou que seu objetivo principal é ajudar essas pessoas e que a compostagem é o instrumento utilizado para financiar o tratamento. depois de pronto, o adubo orgânico de alta qualidade produzido no sítio é ensacado e vendido, e a renda obtida é utilizada para pagar as despesas do local e do tratamento dos internos.

desde a fundação do olimpo, principalmente depois da lei 12.305 e o programa supermercado lixo zero (da acats), o volume de resíduos orgânicos doados aumentou tanto que, atualmente, a instituição chega a recusar novas doações, porque não tem estrutura para receber tanto material.

como se a compostagem em si já não fosse algo tão legal, foi muito bonito ver a paixão com que o edison fala do seu trabalho. seria perfeito se municípios copiassem esse tipo de ideia e incluíssem em seus planos de gerenciamento de resíduos sólidos (pgrs) sítios como o olimpo :)

 

* amanhã vou contar o que steven chiv, de são francisco (eua), e sandra nordstrom, da suécia, falaram sobre o que tem sido feito em seus países em relação à redução do lixo.

 

semana lixo zero – V fórum internacional varejo lixo zero (parte 1/4)

semana lixo zero

passei uns dias em florianópolis (<3) e enquanto estava lá fiquei sabendo, totalmente por acaso, que estava acontecendo a semana lixo zero, com eventos em algumas cidades brasileiras, incluindo floripa. soube depois de uns dias e acabei perdendo algumas atividades interessantes, mas vi que no dia seguinte (27/10) aconteceria o V fórum internacional varejo lixo zero.

era um evento promovido pela associação catarinense de supermercados (acats), o que poderia causar alguma desconfiança, mas:

1 – era aberto ao público;

2 – era gratuito;

3 – chovia sem parar em floripa;

e 4  – o tema me interessava bastante.

então, arrastei minha mãe (<3) comigo e passamos a terça-feira num auditório no centro da cidade. e, olha, foi melhor do que a gente esperava!

foram nove palestras muito boas, feitas por brasileiros, suecos e norte-americanos. vou falar um pouco sobre cada uma, mas achei melhor dividir em quatro posts pra não ficar um texto gigante e cansativo. então, hoje conto um pouco sobre as duas primeiras:

 

1) pal martensson, suécia, zero waste europe

pal martensson

pal martensson, do zero waste europe (foto do instagram dele)

simpático, pal falou sobre a necessidade urgente de se reduzir a quantidade de resíduos descartados no mundo. segundo ele,

“waste is not waste. it’s resources, products and possibilities.”* – pal martensson

*”desperdício não é desperdício. são recursos, produtos e possibilidades”.

pal mostrou fotos de uma praia maravilhosa que ele havia visitado recentemente em bali. de um lado, aquela paisagem linda mas, de outro, pilhas de lixo, principalmente plástico. o nome do lugar? dreamland beach.

mas ele também destacou algumas iniciativas para reduzir a queima e o envio de lixo para aterros, como nas filipinas, onde foi criada uma lei (clean air act) que baniu a incineração de resíduos sólidos em 1999 e, em 2000, uma outra lei (ecological solid waste management act) instituiu um programa de gerenciamento ecológico de resíduos sólidos com a criação de MRFs (materials recovery facilities). os MRFs são locais que recebem, separam, processam e armazenam materiais recicláveis e compostáveis de maneira ambientalmente adequada.

outra questão bem interessante que pal abordou, ainda que rapidamente, foi o papel do design de produtos, que deve considerar materiais e processos utilizados de forma a gerar a menor quantidade possível de lixo durante todo o ciclo de vida dos objetos. outra frase muito significativa em sua palestra, e que deveria ser repetida exaustivamente aos alunos dos cursos de design, foi a seguinte:

 

“if a product can’t be reused, repaired, rebuilt, refurbished, refinished, resold, recycled or composted, then it should be restricted, redesigned, or removed from production.” *- pal martensson

*”se um produto não pode ser reutilizado, reparado, reconstruído, remodelado, reacabado, revendido, reciclado ou compostado, então ele deveria ser restringido, reprojetado ou removido da produção”.

pal ainda lembrou que o grande culpado pelo excesso de lixo produzido pela humanidade é o alto nível de consumo e que a publicidade tem uma grande responsabilidade sobre isso, pois o tempo inteiro fala pra gente comprar mais, associando os objetos à construção das nossas identidades. para o sueco, o “i shop therefore i am” (compro, logo, existo) deve ser substituído pelo “i sort therefore i am” (separo, logo, existo). em tempos de aplicativos pra tudo que a gente imagina, pal brincou que nenhum deles faz a reciclagem pra gente e que, portanto, se queremos um planeta lixo zero, temos que usar nossos próprios cérebros e mãos.

 

2) andré vilhena, brasil, cempre

 

ciclo da coleta seletiva municipal - cempre

fonte: cempre (clica pra ver grande!)

o cempre (compromisso empresarial para a reciclagem), que eu não conhecia, é uma instituição sem fins lucrativos, com sede em são paulo, que foi fundada em 1992 (na época da rio 92) e tem como objetivo promover a reciclagem. apesar de ter entre seus associados um monte de empresas nem um pouco sustentáveis (como coca-cola, mcdonalds, nestlé, unilever etc.), me pareceu uma iniciativa bastante comprometida com a disseminação de informações relacionadas ao gerenciamento de resíduos sólidos.

andré falou sobre a importância da lei 12.305, que institui a PNRS – política nacional de resíduos sólidos. ela ficou parada no congresso por 20 (vin-te!) anos e só em 2010, durante o segundo governo do lula, foi sancionada. é essa lei que determina a responsabilidade conjunta de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes sobre os resíduos de produtos fabricados/comercializados; é ela que fala sobre o papel fundamental dos catadores e suas cooperativas no processo de reciclagem; foi ela que determinou a proibição dos lixões no brasil; é ela que prevê que os municípios desenvolvam planos de gestão de resíduos sólidos (PGRS). dá pra perceber porque nossos políticos enrolaram tanto tempo para aprová-la, né?

segundo andré, existem mais recursos disponibilizados pelo governo federal do que projetos consistentes desenvolvidos pelos municípios brasileiros. é vergonhoso: muitos planos apresentados são ctrl+c / ctrl+v de outros planos e os responsáveis muitas vezes não se dão ao trabalho de trocar os nomes das cidades.

andré também falou sobre a urgência em se reduzir o volume de resíduos enviados para os aterros e na importância que cada cidadão tem nessa cadeia. de acordo com ele, os governos municipais podem, por exemplo, prever em seus planos a definição de multas para quem não separar adequadamente seus resíduos domésticos. na minha opinião,  considerando que muita gente só presta atenção nas coisas quando dói o bolso, seria uma ótima medida. mas já pensou na chiadeira que seria? duvido que prefeitos e vereadores tenham coragem de implementar esse tipo de cobrança.

 

* no post de amanhã: as apresentações de gilberto nascimento, luciana nascimento e edison miranda sobre iniciativas bem legais que já acontecem no brasil :)

 

o primeiro vídeo do “the story of stuff” (alerta: textão!)

como eu disse no texto explicativo sobre o blog, apesar de ter tido meus conflitos durante a graduação em design de produto, foi no começo de 2008, mais de 6 anos após ter me formado, que tive o maior clique sobre a importância de se discutir o consumo em geral. aconteceu quando vi o primeiro vídeo do the story of stuff, que tem pouco mais de 20 minutos de duração e é super didático . foi esse aqui (tem legenda em português):

ele foi produzido por annie leonard e seus amigos do free range studios. annie trabalhou em organizações ligadas à preservação do meio ambiente, como a national wildlife federation e o greenpeace. quando no último, participou de uma campanha para banir o despejo internacional de resíduos e viajou pelo mundo para rastrear lixo e resíduos de risco enviados por países desenvolvidos para países em desenvolvimento, e chegou a testemunhar, no congresso norte-americano, sobre o tráfico internacional de resíduos.

esse primeiro vídeo do the story of stuff foi lançado em dezembro de 2007 e teve tanto sucesso que, em 2008, annie fundou o projeto de mesmo nome. desde então, ela lançou um livro sobre a história das coisas e já foram produzidos outros vídeos da mesma linha.

mas voltando ao primeiro vídeo, esse que me marcou tanto, logo no começo a annie já fala uma daquelas coisas que são muito óbvias e importantes, mas que não são levadas a sério como deveriam ser. desde cedo, na escola, a gente aprende que os produtos passam por cinco estágios durante sua “vida”: extração, produção, distribuição, consumo e descarte. certo? bom, certo não é, mas é assim que as coisas têm sido feitas há bastante tempo e é por isso que esse sistema está em crise: é um sistema linear, mas nós vivemos em um planeta finito, ou seja, não é possível manter um sistema linear em um planeta finito pra sempre.

apesar de em alguns momentos o vídeo ser meio datado (já começa com a annie mostrando um modelo antigo de ipod, por exemplo), as informações apresentadas são sérias. no site do projeto, é possível baixar a transcrição de toda a fala do vídeo e verificar as fontes dos dados citados. alguns exemplos:

depois de ler tudo isso, pode até dar um desânimo muito grande… mas, apesar de tudo, tem muita gente procurando alternativas para tentar minimizar os efeitos da nossa ação pelo planeta, seja saindo desse ciclo louco de consumismo, pressionando as empresas, cobrando ações dos governos – ou fazendo tudo isso ao mesmo tempo. divulgar essas informações também é uma grande ajuda, porque tudo começa a partir da conscientização!

que tal você começar passando o link do vídeo pros seus amigos ou compartilhando este post nas redes sociais? é só clicar no título, que as opções de compartilhamento aparecem logo abaixo do corpo do post :)

aceita um desafio?

don't buy anything you've ever seen advertised

“não compre nada que você já tenha visto anunciado”

há alguns anos, vi a imagem acima e topei o desafio: resolvi me policiar na hora de fazer as compras e evitar, ao máximo, comprar coisas de que eu já tivesse visto algum tipo de propaganda. parece bobeira, revoltinha de adolescente, né? mas aos poucos fui percebendo que fazia sentido – e muito.

lembro que na época, muitas vezes, eu acabava comprando produtos de marcas mais conhecidas, justamente porque tinha visto propaganda ou porque a embalagem era mais bonita. é, acho que a maior parte das pessoas cai nesses truques cuidadosamente planejados nos departamentos de marketing das empresas. quando tomei a decisão de tentar não comprar coisas anunciadas, tive um pouco de resistência em escolher, por exemplo, aquela batata-palha com um nome meio tosco, uma marquinha feia, a impressão meio torta na embalagem. mas nesse primeiro momento, vi uma grande vantagem pra mim: esses produtos são, geralmente, mais baratos que seus concorrentes famosos. e a qualidade nem é tão diferente assim.

depois de passado esse estranhamento, passei a perceber que estava comprando menos de grandes empresas multinacionais e mais coisas feitas por pequenas empresas com sede ou fábrica em bh e cidades próximas. outra vantagem e, dessa vez, não só para mim. comprar do produtor local e pouco conhecido é bom porque:

  • os produtos costumam ser mais baratos, já que o custo com transporte é menor e a empresa não gasta milhões em anúncios caros;
  • de acordo com o sebrae, as pequenas empresas são as que mais geram empregos no brasil, sendo responsáveis por cerca de 52% dos empregos formais;
  • ainda segundo o sebrae, ao fortalecer os negócios locais, movimenta-se o comércio e promove-se o desenvolvimento social local;
  • diminui o impacto ambiental, porque as mercadorias percorrem distâncias menores até chegar ao consumidor, reduzindo a emissão de poluição.

pra mim, no começo foi mesmo uma provocação – eu não sabia que era tão comandada pela publicidade. mas depois de um tempo, evitar comprar produtos anunciados se tornou um ótimo hábito: pro meu bolso, pras pessoas empregadas, pra minha região e pro meio ambiente.

e você, aceita o desafio?

15 de outubro: dia do consumo consciente

há pouco tempo, fiquei sabendo que existia um dia do consumo consciente no brasil. eu já tinha resolvido voltar a blogar e achei a data perfeita pra colocar o desconsumida no ar.

embora a expressão “consumo consciente” seja facilmente utilizada pra empurrar mais tralha pra cima da gente, a verdade é que é, sim, fundamental (para nós, para os outros e para o planeta) que façamos nossas escolhas de consumo a partir da consciência de todo processo produtivo envolvido em cada coisinha que resolvemos consumir. e isso inclui também o descarte.

de acordo com uma pesquisa realizada pelo ministério do meio ambiente em 2012, dois terços dos brasileiros não conhecem a expressão “consumo consciente”. é muita gente! mas podemos pensar também que nesses dois terços existem aqueles que adotam práticas conscientes de consumo, ainda que não saibam que há um nome para isso. vamos torcer.

consumir de forma consciente é procurar se informar e fazer escolhas responsáveis, pesando prós e contras na hora das compras. afinal, para que qualquer mercadoria chegue às lojas e esteja só a um cartão de plástico de distância de nossas mãos, muita coisa precisa acontecer, e nem sempre são coisas legais e bonitas de se ver.

o ministério do meio ambiente define o consumidor consciente como “aquele que leva em conta, ao escolher os produtos que compra, o meio ambiente, a saúde humana e animal, as relações justas de trabalho, além de questões como preço e marca“.

falando assim, pode até dar a impressão de que é impossível encontrar alguma coisa que se encaixe nesses pré-requisitos, né? mas é bom saber que temos opções, que existem alternativas disponíveis pra (quase) tudo. aos poucos vou colocar aqui no blog algumas coisas que tenho pesquisado sobre isso.

na verdade, é bem simples: consumo consciente é menos consumo! e não tem sofrimento nenhum nisso, é só uma questão de hábito :)

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que há vida inteligente na Terra?

amei esse texto do george monbiot! ele foi publicado originalmente no guardian, no dia 29 de setembro de 2015. achei que merecia a tradução e me arrisquei aqui. desconsidere qualquer deslize ;)

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que há vida inteligente na Terra?
George Monbiot

Enquanto nos maravilhamos com as descobertas da Nasa, destruímos nossos recursos naturais insubstituíveis – para que possamos comprar bananas pré-descascadas e smartphones pra cachorros

Crédito: Andrzej Krauze (the guardian)

Evidência de água fluindo em Marte: isso abre a possibilidade de vida, de maravilhas que não podemos nem começar a imaginar. Sua descoberta é uma façanha surpreendente. Enquanto isso, cientistas marcianos continuam sua busca por vida inteligente na Terra.

Nós podemos ser cativados pela ideia de organismos em outro planeta, mas parece que perdemos o interesse em nosso próprio. O Dicionário Oxford Junior tem excluído referências do mundo vivo. Víboras, amoras, jacintos-silvestres, castanhas-da-índia, azevinho, pegas, vairões, lontras, prímulas, tordos, doninhas, carriças agora são excedentes.

Nas últimas quatro décadas, o mundo perdeu 50% da sua vida selvagem vertebrada. Mas durante a última metade desse período, houve um declínio acentuado na cobertura da imprensa. Em 2014, de acordo com um estudo na Universidade de Cardiff, houve tantas notícias transmitidas pela BBC e ITV sobre Madeleine McCann (que desapareceu em 2007) quanto sobre toda variedade de questões ambientais.

Imagine o que mudaria se nós valorizássemos a água terrestre tanto quanto valorizamos a possibilidade de água em Marte. Apenas 3% da água no nosso planeta é potável; e desse total, dois terços estão congelados. Mesmo assim, nós continuamos enchendo de lixo a parte acessível. Sessenta por cento da água utilizada na agricultura é desnecessariamente descartada por causa da irrigação descuidada. Rios, lagos e aquíferos são sugados, enquanto o que sobra geralmente está tão contaminado que ameaça as vidas de quem bebe. No Reino Unido, a demanda doméstica é tão grande que o curso superior de muitos rios desaparece durante o verão. E mesmo assim nós instalamos vasos e chuveiros velhos e toscos que jorram como cachoeira.

Quanto à água salgada, do tipo que nos encanta tanto quando aparentemente detectada em Marte, na Terra nós expressamos nossa admiração com um furor de destruição. Um novo relatório sugere que a quantidade de peixes caiu pela metade desde 1970. O atum-do-pacífico, que antes habitava os mares aos milhões, foi reduzido a uma estimativa de 40.000, que ainda são perseguidos. Os recifes de corais estão sob tanta pressão que a maior parte pode sumir até 2050. E no nosso próprio espaço profundo, nosso desejo por peixes exóticos devasta um mundo escassamente mais conhecido por nós do que a superfície do planeta vermelho. Traineiras agora trabalham a profundidades de 2.000 metros. Podemos apenas imaginar o que elas podem estar destruindo.

Poucas horas antes do anúncio da descoberta marciana, a Shell encerrou a prospecção de petróleo do Ártico no Mar de Chukchi. Para os investidores da empresa, é um pequeno desastre: a perda de 4 bilhões de dólares; para aqueles que amam o planeta e a vida que ele sustenta, é um golpe de muita sorte. E só aconteceu porque a empresa falhou em encontrar reservas suficientes. Se a Shell tivesse tido sucesso, teria exposto um dos lugares mais vulneráveis da Terra a derramamentos, que são quase inevitáveis onde a contenção é quase impossível. Nós vamos mesmo deixar essas questões à própria sorte?

No começo de setembro, duas semanas após ter concedido permissão à Shell para perfurar o Mar de Chukchi, Barack Obama viajou ao Alasca para alertar aos norte-americanos sobre os efeitos devastadores que as mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis poderiam catalisar no Ártico. “Não é suficiente apenas falar a fala”, disse a eles. “Nós temos que caminhar a caminhada”. Nós devemos “abraçar o talento humano que pode fazer algo a esse respeito”. O talento humano é abundante na Nasa, que divulgou essas imagens surpreendentes. Mas na política é diferente.

Deixe que o mercado decida: é assim que os governos procuram resolver a destruição planetária. Deixe com a consciência dos consumidores, enquanto essa consciência é calada e confundida por propagandas e mentiras corporativas. Em um quase vácuo de informação, nós devemos decidir o que tirar de outras espécies e outras pessoas, o que pegar para nós mesmos ou deixar para as próximas gerações. Certamente há alguns recursos e alguns lugares – como o Ártico e o mar profundo – cuja exploração deveria simplesmente parar?

Toda essa perfuração e escavação e arrasto e despejo e envenenamento – pra que serve isso? Isso enriquece a experiência humana ou a sufoca? Algumas semanas atrás eu lancei a hashtag #extremecivilisation e pedi sugestões. Elas vieram aos montes. Aqui estão apenas alguns produtos que meus correspondentes encontraram. Todos eles, até onde eu sei, são reais.

Um porta-ovos para a sua geladeira que sincroniza com seu telefone para que você saiba quantos ovos ainda estão lá. Uma engenhoca pra mexê-los – ainda dentro da casca. Perucas para bebês, para fazer com que “nenenzinhas com pouco ou nenhum cabelo tenham a oportunidade de ter um penteado lindamente realista”. O iPotty, que permite que crianças novinhas continuem brincando com seus iPads enquanto aprendem a usar o vaso sanitário. Uma cabana a prova de aranhas por £2.000 (mais de R$10.000). Uma sauna de neve, em promoção nos Emirados Árabes, em que você pode criar um paraíso do inverno com o apertar de um botão. Um porta-melancia refrigerado sobre rodas: indispensável para piqueniques – ou talvez não, já que é mais pesado que a fruta. Creme de clareamento anal, para… para ser honesto, não quero nem saber. Um “rotor automático de relógios” que te livra da chateação de ter que ficar rodando seu brinquedinho de pulso de luxo. Um smartphone para cachorros, com o qual eles podem fazer fotos de si mesmos. Bananas pré-descascadas, em bandejas de isopor envoltas em filme plástico. Você só precisa descascar a embalagem.

Todos os anos, novos modos espertos de se desperdiçar coisas são inventados, e todos os anos nós nos tornamos mais acostumados ao consumo sem sentido dos preciosos recursos do mundo. A cada intensificação sutil, a linha da normalidade se transforma. Não deveria surpreender a descoberta de que quanto mais rico um país se torna, menos a sua população se importa com os seus impactos no planeta.

Nossa alienação do mundo de maravilhas com o qual nós evoluímos tem se intensificado desde que David Bowie descreveu uma garota tropeçando em um “sonho afundado”, no seu caminho para ser “apanhada pela tela prateada”, onde uma longa série de distrações a afastam das grandes questões da vida. A música, é claro, era Life on Mars.

sobre o blog

voltei a blogar!

bom, antes de falar sobre o desconsumida, só queria deixar bem claro que não sou contra o consumo em si. não conheço ninguém que não sinta prazer em comprar alguma coisa numa voltinha na rua, em chegar em casa com uma surpresinha. comprar (quando a gente pode) é gostoso, sim!

faz alguns anos que me interesso pelo tema do consumo. sou formada em design de produto (pois é…) e já na graduação achava estranho aquele papo de “criar novas necessidades”. comecei a questionar muita coisa, tive várias crises e quase desisti de me formar, mas como eu já tinha largado um curso (ciências biológicas) antes, resolvi insistir.

no comecinho de 2008, conheci o story of stuff e fiquei fascinada: era como se alguém tivesse organizado tudo que eu sentia ou percebia, mas não conseguia expressar objetivamente. a partir de então, comecei a prestar mais atenção em notícias sobre condições de produção ou consequências do uso de algum produto e passei a evitar ou eliminar vários itens da minha vida: os “made in china“, os produzidos por grandes multinacionais, os transgênicos, os que contenham ingredientes de origem animal…

mas resolvi criar o desconsumida depois de conhecer o um ano sem lixo, da cristal muniz. quando vi os relatos dela sobre esse desejo de produzir menos lixo, mostrando que tudo é uma questão de mudar os nossos hábitos, fiquei inspirada em reunir o que venho pesquisando sobre o consumo em geral e mostrar tudo pra mais gente.

o objetivo é que esse blog funcione como um local para registrar informações sobre o assunto e mostrar que é, sim, possível optar por um caminho com escolhas mais éticas, responsáveis, conscientes e sustentáveis no que diz respeito ao que consumimos.

espero, assim, poder ajudar cada vez mais gente a desconsumir :)

© 2017 desconsumida

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