Category: consumismo

xampu: desde quando?

gif de xampu

bons tempos em que só tinha um xampu na prateleira…

já reparou na quantidade de xampus e condicionadores nos corredores de mercados e farmácias? fora aqueles que a gente só consegue comprar em salões de beleza, no exterior ou online. tem xampu pra cabelo claro, escuro, branco, tingido, liso, ondulado, cacheado, oleoso, seco, misto, normal, com óleo de não sei o que, proteína não sei das quantas, pra diminuir fiapinhos, pra neném, criança, adolescente e adulto, pra deixar o cabelo macio, brilhante, pra fazer crescer, pra dar volume, pra diminuir o volume, pra reparar, pra nutrir, pra “purificar a raiz”, com sal, sem sal, com parabeno, sem parabeno, com sulfato, sem sulfato, com corante, sem corante, pra “detox capilar”, pra não cair, pra não ter caspa, xampu a seco, xampu com cheiro de fruta, de ervas, de flor, de xampu… e outro dia vi até um tal de pré-xampu!

e quem foi que disse que sempre foi assim? quando eu era criança, acho que só existiam xampus pra cabelos secos-oleosos-normais e, no máximo, um de camomila pra quem queria clarear. condicionador? nenhum, o que tinha era creme rinse!

omg im so retro

já experimentou perguntar aos seus parentes mais velhos como eles lavavam os cabelos na infância? ano passado, perguntei aos meus pais e a resposta dos dois foi: com sabonete. pode até parecer que eles têm uns 200 anos de idade, moravam nos cafundós de mg e eram muito humildes, né? mas não: eles têm 67 e 65 anos, nasceram e sempre viveram em bh e são, os dois, de famílias de classe média. eles lavavam os cabelos com sabonete porque não tinha xampu até década de 1950/60 no brasil (ou, pelo menos, aqui em bh)! segundo eles, parece que o primeiro que apareceu por aqui foi o johnson’s, mas não encontrei esse dado online pra confirmar.

xampu é uma palavra boa de falar, né?  xam-pu. ela tem origem na índia: a palavra hindi chāmpo é a forma imperativa do verbo chāmpnā, que significa “pressionar, amassar os músculos”. na era colonial, os ingleses a adotaram, mas só em 1860 foi registrado seu uso com o significado de “lavar os cabelos”.  mas isso não quer dizer que as pessoas não lavavam a cabeça antes de 1860, é claro. a wikipedia diz que desde a antiguidade vários povos usavam ervas e seus extratos como xampu: índia, indonésia (queimavam a casca e a palha do arroz e misturavam essas cinzas com água pra fazer espuma), américa do norte (os nativos usavam o extrato de uma espécie de samambaia) e do sul (na região andina, usavam a água da lavagem da quinoa). no brasil, parece que os índios usavam pó de juá (o fruto do juazeiro).

how to shampoo the hair - new york times, 1908

trechinho de matéria do new york times em 1908, ensinando a usar xampu (na verdade, sabão a base de azeite de oliva) pra cuidar dos cabelos.
(clique na imagem para ver a matéria completa)

os europeus, depois que tiveram contato com os indianos e descobriram que lavar a cabeça com mais do que só água era uma coisa muito legal, passaram a ferver sabão ralado e ervas. os xampus só começaram a ser produzidos e comercializados na europa na virada para o século XX e eram em barra, como os sabões. a forma líquida não tem nem 100 anos: foi inventada em 1927, na alemanha. e o primeiro xampu sintético, mais parecido com os que encontramos hoje em dia, só apareceu na década de 1930!

e aí, deduzi que minhas avós e as irmãs e mães delas também lavavam os cabelos com sabão. se você tiver acesso a fotos da sua avó na juventude, repare no penteado e no estado do cabelo dela. é impressionante imaginar, depois de crescermos achando que xampus, condicionadores e cremes existem desde sempre, que é possível ter um cabelo lindo – e, principalmente, saudável – sem usar milhares de produtos específicos que nos fazem acreditar ser indispensáveis à nossa vida.

vó célia

minha avó célia (<3) e seu cabelo ondulado, por volta de 1940

o brasil é o terceiro colocado no mercado mundial de cosméticos, atrás só dos eua e da china, e é o segundo lugar em vendas de produtos para os cabelos (o primeiro é a china). em 2013, fomos o país que lançou mais produtos para cabelos no mundo. estima-se que em 2019 o mercado mundial de xampus alcance o valor de 25,73 bilhões de dólares. é facinho perceber que vão continuar tentando nos convencer de que precisamos encher nossos boxes com aquele monte de potes…

acontece que os xampus comerciais não necessariamente são bons para a saúde dos nossos cabelos. eles funcionam como detergentes bem agressivos: tiram do couro cabeludo o óleo naturalmente produzido pelo nosso corpo, ressecando o cabelo. e aí, são adicionadas mais substâncias aos xampus para mascarar todos os efeitos negativos dos outros ingredientes e ainda temos que usar condicionador no fio pra melhorar seu aspecto. é só reler os números do parágrafo anterior pra entender que se trata de um círculo intencionalmente vicioso.

além disso, boa parte das substâncias químicas utilizadas na formulação desses produtos é tóxica para nosso organismo e para o meio ambiente. ainda tem a questão das embalagens, que geralmente são de plástico. vou deixar pra falar mais disso em outro post, porque esse aqui já ficou bem grandinho. mas deixo um pequeno spoiler pra quem tá se perguntando “será que tem saída?“: tem sim!

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que há vida inteligente na Terra?

amei esse texto do george monbiot! ele foi publicado originalmente no guardian, no dia 29 de setembro de 2015. achei que merecia a tradução e me arrisquei aqui. desconsidere qualquer deslize ;)

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que há vida inteligente na Terra?
George Monbiot

Enquanto nos maravilhamos com as descobertas da Nasa, destruímos nossos recursos naturais insubstituíveis – para que possamos comprar bananas pré-descascadas e smartphones pra cachorros

Crédito: Andrzej Krauze (the guardian)

Evidência de água fluindo em Marte: isso abre a possibilidade de vida, de maravilhas que não podemos nem começar a imaginar. Sua descoberta é uma façanha surpreendente. Enquanto isso, cientistas marcianos continuam sua busca por vida inteligente na Terra.

Nós podemos ser cativados pela ideia de organismos em outro planeta, mas parece que perdemos o interesse em nosso próprio. O Dicionário Oxford Junior tem excluído referências do mundo vivo. Víboras, amoras, jacintos-silvestres, castanhas-da-índia, azevinho, pegas, vairões, lontras, prímulas, tordos, doninhas, carriças agora são excedentes.

Nas últimas quatro décadas, o mundo perdeu 50% da sua vida selvagem vertebrada. Mas durante a última metade desse período, houve um declínio acentuado na cobertura da imprensa. Em 2014, de acordo com um estudo na Universidade de Cardiff, houve tantas notícias transmitidas pela BBC e ITV sobre Madeleine McCann (que desapareceu em 2007) quanto sobre toda variedade de questões ambientais.

Imagine o que mudaria se nós valorizássemos a água terrestre tanto quanto valorizamos a possibilidade de água em Marte. Apenas 3% da água no nosso planeta é potável; e desse total, dois terços estão congelados. Mesmo assim, nós continuamos enchendo de lixo a parte acessível. Sessenta por cento da água utilizada na agricultura é desnecessariamente descartada por causa da irrigação descuidada. Rios, lagos e aquíferos são sugados, enquanto o que sobra geralmente está tão contaminado que ameaça as vidas de quem bebe. No Reino Unido, a demanda doméstica é tão grande que o curso superior de muitos rios desaparece durante o verão. E mesmo assim nós instalamos vasos e chuveiros velhos e toscos que jorram como cachoeira.

Quanto à água salgada, do tipo que nos encanta tanto quando aparentemente detectada em Marte, na Terra nós expressamos nossa admiração com um furor de destruição. Um novo relatório sugere que a quantidade de peixes caiu pela metade desde 1970. O atum-do-pacífico, que antes habitava os mares aos milhões, foi reduzido a uma estimativa de 40.000, que ainda são perseguidos. Os recifes de corais estão sob tanta pressão que a maior parte pode sumir até 2050. E no nosso próprio espaço profundo, nosso desejo por peixes exóticos devasta um mundo escassamente mais conhecido por nós do que a superfície do planeta vermelho. Traineiras agora trabalham a profundidades de 2.000 metros. Podemos apenas imaginar o que elas podem estar destruindo.

Poucas horas antes do anúncio da descoberta marciana, a Shell encerrou a prospecção de petróleo do Ártico no Mar de Chukchi. Para os investidores da empresa, é um pequeno desastre: a perda de 4 bilhões de dólares; para aqueles que amam o planeta e a vida que ele sustenta, é um golpe de muita sorte. E só aconteceu porque a empresa falhou em encontrar reservas suficientes. Se a Shell tivesse tido sucesso, teria exposto um dos lugares mais vulneráveis da Terra a derramamentos, que são quase inevitáveis onde a contenção é quase impossível. Nós vamos mesmo deixar essas questões à própria sorte?

No começo de setembro, duas semanas após ter concedido permissão à Shell para perfurar o Mar de Chukchi, Barack Obama viajou ao Alasca para alertar aos norte-americanos sobre os efeitos devastadores que as mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis poderiam catalisar no Ártico. “Não é suficiente apenas falar a fala”, disse a eles. “Nós temos que caminhar a caminhada”. Nós devemos “abraçar o talento humano que pode fazer algo a esse respeito”. O talento humano é abundante na Nasa, que divulgou essas imagens surpreendentes. Mas na política é diferente.

Deixe que o mercado decida: é assim que os governos procuram resolver a destruição planetária. Deixe com a consciência dos consumidores, enquanto essa consciência é calada e confundida por propagandas e mentiras corporativas. Em um quase vácuo de informação, nós devemos decidir o que tirar de outras espécies e outras pessoas, o que pegar para nós mesmos ou deixar para as próximas gerações. Certamente há alguns recursos e alguns lugares – como o Ártico e o mar profundo – cuja exploração deveria simplesmente parar?

Toda essa perfuração e escavação e arrasto e despejo e envenenamento – pra que serve isso? Isso enriquece a experiência humana ou a sufoca? Algumas semanas atrás eu lancei a hashtag #extremecivilisation e pedi sugestões. Elas vieram aos montes. Aqui estão apenas alguns produtos que meus correspondentes encontraram. Todos eles, até onde eu sei, são reais.

Um porta-ovos para a sua geladeira que sincroniza com seu telefone para que você saiba quantos ovos ainda estão lá. Uma engenhoca pra mexê-los – ainda dentro da casca. Perucas para bebês, para fazer com que “nenenzinhas com pouco ou nenhum cabelo tenham a oportunidade de ter um penteado lindamente realista”. O iPotty, que permite que crianças novinhas continuem brincando com seus iPads enquanto aprendem a usar o vaso sanitário. Uma cabana a prova de aranhas por £2.000 (mais de R$10.000). Uma sauna de neve, em promoção nos Emirados Árabes, em que você pode criar um paraíso do inverno com o apertar de um botão. Um porta-melancia refrigerado sobre rodas: indispensável para piqueniques – ou talvez não, já que é mais pesado que a fruta. Creme de clareamento anal, para… para ser honesto, não quero nem saber. Um “rotor automático de relógios” que te livra da chateação de ter que ficar rodando seu brinquedinho de pulso de luxo. Um smartphone para cachorros, com o qual eles podem fazer fotos de si mesmos. Bananas pré-descascadas, em bandejas de isopor envoltas em filme plástico. Você só precisa descascar a embalagem.

Todos os anos, novos modos espertos de se desperdiçar coisas são inventados, e todos os anos nós nos tornamos mais acostumados ao consumo sem sentido dos preciosos recursos do mundo. A cada intensificação sutil, a linha da normalidade se transforma. Não deveria surpreender a descoberta de que quanto mais rico um país se torna, menos a sua população se importa com os seus impactos no planeta.

Nossa alienação do mundo de maravilhas com o qual nós evoluímos tem se intensificado desde que David Bowie descreveu uma garota tropeçando em um “sonho afundado”, no seu caminho para ser “apanhada pela tela prateada”, onde uma longa série de distrações a afastam das grandes questões da vida. A música, é claro, era Life on Mars.

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