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o primeiro vídeo do “the story of stuff” (alerta: textão!)

como eu disse no texto explicativo sobre o blog, apesar de ter tido meus conflitos durante a graduação em design de produto, foi no começo de 2008, mais de 6 anos após ter me formado, que tive o maior clique sobre a importância de se discutir o consumo em geral. aconteceu quando vi o primeiro vídeo do the story of stuff, que tem pouco mais de 20 minutos de duração e é super didático . foi esse aqui (tem legenda em português):

ele foi produzido por annie leonard e seus amigos do free range studios. annie trabalhou em organizações ligadas à preservação do meio ambiente, como a national wildlife federation e o greenpeace. quando no último, participou de uma campanha para banir o despejo internacional de resíduos e viajou pelo mundo para rastrear lixo e resíduos de risco enviados por países desenvolvidos para países em desenvolvimento, e chegou a testemunhar, no congresso norte-americano, sobre o tráfico internacional de resíduos.

esse primeiro vídeo do the story of stuff foi lançado em dezembro de 2007 e teve tanto sucesso que, em 2008, annie fundou o projeto de mesmo nome. desde então, ela lançou um livro sobre a história das coisas e já foram produzidos outros vídeos da mesma linha.

mas voltando ao primeiro vídeo, esse que me marcou tanto, logo no começo a annie já fala uma daquelas coisas que são muito óbvias e importantes, mas que não são levadas a sério como deveriam ser. desde cedo, na escola, a gente aprende que os produtos passam por cinco estágios durante sua “vida”: extração, produção, distribuição, consumo e descarte. certo? bom, certo não é, mas é assim que as coisas têm sido feitas há bastante tempo e é por isso que esse sistema está em crise: é um sistema linear, mas nós vivemos em um planeta finito, ou seja, não é possível manter um sistema linear em um planeta finito pra sempre.

apesar de em alguns momentos o vídeo ser meio datado (já começa com a annie mostrando um modelo antigo de ipod, por exemplo), as informações apresentadas são sérias. no site do projeto, é possível baixar a transcrição de toda a fala do vídeo e verificar as fontes dos dados citados. alguns exemplos:

depois de ler tudo isso, pode até dar um desânimo muito grande… mas, apesar de tudo, tem muita gente procurando alternativas para tentar minimizar os efeitos da nossa ação pelo planeta, seja saindo desse ciclo louco de consumismo, pressionando as empresas, cobrando ações dos governos – ou fazendo tudo isso ao mesmo tempo. divulgar essas informações também é uma grande ajuda, porque tudo começa a partir da conscientização!

que tal você começar passando o link do vídeo pros seus amigos ou compartilhando este post nas redes sociais? é só clicar no título, que as opções de compartilhamento aparecem logo abaixo do corpo do post :)

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que há vida inteligente na Terra?

amei esse texto do george monbiot! ele foi publicado originalmente no guardian, no dia 29 de setembro de 2015. achei que merecia a tradução e me arrisquei aqui. desconsidere qualquer deslize ;)

Pode haver água fluindo em Marte. Mas será que há vida inteligente na Terra?
George Monbiot

Enquanto nos maravilhamos com as descobertas da Nasa, destruímos nossos recursos naturais insubstituíveis – para que possamos comprar bananas pré-descascadas e smartphones pra cachorros

Crédito: Andrzej Krauze (the guardian)

Evidência de água fluindo em Marte: isso abre a possibilidade de vida, de maravilhas que não podemos nem começar a imaginar. Sua descoberta é uma façanha surpreendente. Enquanto isso, cientistas marcianos continuam sua busca por vida inteligente na Terra.

Nós podemos ser cativados pela ideia de organismos em outro planeta, mas parece que perdemos o interesse em nosso próprio. O Dicionário Oxford Junior tem excluído referências do mundo vivo. Víboras, amoras, jacintos-silvestres, castanhas-da-índia, azevinho, pegas, vairões, lontras, prímulas, tordos, doninhas, carriças agora são excedentes.

Nas últimas quatro décadas, o mundo perdeu 50% da sua vida selvagem vertebrada. Mas durante a última metade desse período, houve um declínio acentuado na cobertura da imprensa. Em 2014, de acordo com um estudo na Universidade de Cardiff, houve tantas notícias transmitidas pela BBC e ITV sobre Madeleine McCann (que desapareceu em 2007) quanto sobre toda variedade de questões ambientais.

Imagine o que mudaria se nós valorizássemos a água terrestre tanto quanto valorizamos a possibilidade de água em Marte. Apenas 3% da água no nosso planeta é potável; e desse total, dois terços estão congelados. Mesmo assim, nós continuamos enchendo de lixo a parte acessível. Sessenta por cento da água utilizada na agricultura é desnecessariamente descartada por causa da irrigação descuidada. Rios, lagos e aquíferos são sugados, enquanto o que sobra geralmente está tão contaminado que ameaça as vidas de quem bebe. No Reino Unido, a demanda doméstica é tão grande que o curso superior de muitos rios desaparece durante o verão. E mesmo assim nós instalamos vasos e chuveiros velhos e toscos que jorram como cachoeira.

Quanto à água salgada, do tipo que nos encanta tanto quando aparentemente detectada em Marte, na Terra nós expressamos nossa admiração com um furor de destruição. Um novo relatório sugere que a quantidade de peixes caiu pela metade desde 1970. O atum-do-pacífico, que antes habitava os mares aos milhões, foi reduzido a uma estimativa de 40.000, que ainda são perseguidos. Os recifes de corais estão sob tanta pressão que a maior parte pode sumir até 2050. E no nosso próprio espaço profundo, nosso desejo por peixes exóticos devasta um mundo escassamente mais conhecido por nós do que a superfície do planeta vermelho. Traineiras agora trabalham a profundidades de 2.000 metros. Podemos apenas imaginar o que elas podem estar destruindo.

Poucas horas antes do anúncio da descoberta marciana, a Shell encerrou a prospecção de petróleo do Ártico no Mar de Chukchi. Para os investidores da empresa, é um pequeno desastre: a perda de 4 bilhões de dólares; para aqueles que amam o planeta e a vida que ele sustenta, é um golpe de muita sorte. E só aconteceu porque a empresa falhou em encontrar reservas suficientes. Se a Shell tivesse tido sucesso, teria exposto um dos lugares mais vulneráveis da Terra a derramamentos, que são quase inevitáveis onde a contenção é quase impossível. Nós vamos mesmo deixar essas questões à própria sorte?

No começo de setembro, duas semanas após ter concedido permissão à Shell para perfurar o Mar de Chukchi, Barack Obama viajou ao Alasca para alertar aos norte-americanos sobre os efeitos devastadores que as mudanças climáticas causadas pela queima de combustíveis fósseis poderiam catalisar no Ártico. “Não é suficiente apenas falar a fala”, disse a eles. “Nós temos que caminhar a caminhada”. Nós devemos “abraçar o talento humano que pode fazer algo a esse respeito”. O talento humano é abundante na Nasa, que divulgou essas imagens surpreendentes. Mas na política é diferente.

Deixe que o mercado decida: é assim que os governos procuram resolver a destruição planetária. Deixe com a consciência dos consumidores, enquanto essa consciência é calada e confundida por propagandas e mentiras corporativas. Em um quase vácuo de informação, nós devemos decidir o que tirar de outras espécies e outras pessoas, o que pegar para nós mesmos ou deixar para as próximas gerações. Certamente há alguns recursos e alguns lugares – como o Ártico e o mar profundo – cuja exploração deveria simplesmente parar?

Toda essa perfuração e escavação e arrasto e despejo e envenenamento – pra que serve isso? Isso enriquece a experiência humana ou a sufoca? Algumas semanas atrás eu lancei a hashtag #extremecivilisation e pedi sugestões. Elas vieram aos montes. Aqui estão apenas alguns produtos que meus correspondentes encontraram. Todos eles, até onde eu sei, são reais.

Um porta-ovos para a sua geladeira que sincroniza com seu telefone para que você saiba quantos ovos ainda estão lá. Uma engenhoca pra mexê-los – ainda dentro da casca. Perucas para bebês, para fazer com que “nenenzinhas com pouco ou nenhum cabelo tenham a oportunidade de ter um penteado lindamente realista”. O iPotty, que permite que crianças novinhas continuem brincando com seus iPads enquanto aprendem a usar o vaso sanitário. Uma cabana a prova de aranhas por £2.000 (mais de R$10.000). Uma sauna de neve, em promoção nos Emirados Árabes, em que você pode criar um paraíso do inverno com o apertar de um botão. Um porta-melancia refrigerado sobre rodas: indispensável para piqueniques – ou talvez não, já que é mais pesado que a fruta. Creme de clareamento anal, para… para ser honesto, não quero nem saber. Um “rotor automático de relógios” que te livra da chateação de ter que ficar rodando seu brinquedinho de pulso de luxo. Um smartphone para cachorros, com o qual eles podem fazer fotos de si mesmos. Bananas pré-descascadas, em bandejas de isopor envoltas em filme plástico. Você só precisa descascar a embalagem.

Todos os anos, novos modos espertos de se desperdiçar coisas são inventados, e todos os anos nós nos tornamos mais acostumados ao consumo sem sentido dos preciosos recursos do mundo. A cada intensificação sutil, a linha da normalidade se transforma. Não deveria surpreender a descoberta de que quanto mais rico um país se torna, menos a sua população se importa com os seus impactos no planeta.

Nossa alienação do mundo de maravilhas com o qual nós evoluímos tem se intensificado desde que David Bowie descreveu uma garota tropeçando em um “sonho afundado”, no seu caminho para ser “apanhada pela tela prateada”, onde uma longa série de distrações a afastam das grandes questões da vida. A música, é claro, era Life on Mars.

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