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semana lixo zero – v fórum internacional varejo lixo zero (parte 2/4)

as três apresentações seguintes do fórum fizeram parte de um painel que foi muito melhor do que o nome pretensioso que deram a ele, “o supermercado como protagonista da cadeia produtiva social”:
3) gilberto nascimento, brasil, angeloni supermercados

programa supermercado lixo zero acatsera um evento para supermercadistas, não tinha como não colocarem alguém do setor pra falar, né? mas acabei me surpreendendo com o que o gilberto apresentou. o angeloni, rede catarinense com 28 lojas em santa catarina e no paraná, em 2011 aderiu ao programa supermercado lixo zero e tem alcançado ótimos resultados.

o programa é uma iniciativa da acats (associação catarinense de supermercados) que, de acordo com o site da entidade, “tem como finalidade assessorar os associados a se adequarem à lei 12.305, ao mesmo tempo em que melhoram seus processos, reduzem custos de gestão com resíduos, ampliam a qualidade dos serviços e adotam uma postura sócio-ambiental, valorizando sua imagem junto ao consumidor e órgãos públicos“. infelizmente, não inclui o consumidor final, ou seja, não diz respeito às embalagens dos produtos e aos milhares de sacolas plásticas que as pessoas utilizam para levar as compras pra casa. é um programa interno, mas cumpre muito bem seus objetivos.

gilberto apresentou números assustadores: o brasil desperdiça cerca de 26,3 milhões de toneladas de alimentos a cada ano, dos quais 13 milhões são jogadas no lixo pelos supermercados. essa situação precisa ser revertida com urgência e por isso a gente tem que parabenizar a iniciativa da acats, em parceria com o instituto lixo zero brasil, de realizar o fórum para conscientizar os empresários da área.

no angeloni, hortifrutis que ainda estão em boas condições de consumo, mas que muitas vezes são rejeitados pelos compradores, que procuram vegetais bonitos, grandes e brilhantes, são doados para programas como o mesa brasil (já vou falar dele), e os que já não podem ser consumidos são doados para compostagem (também falo mais sobre isso neste post). uma coisa bem interessante que o gilberto falou foi que sempre que os funcionários do angeloni são levados para conhecer locais que recebem as doações, o envolvimento com o programa aumenta e a participação chega a triplicar. olha que coisa boa: atualmente, a rede já consegue destinar corretamente cerca de 93% dos resíduos que produz!

fiz uma pesquisa rápida agora no google e não consegui encontrar nenhuma notícia sobre algum supermercado em bh que adote ações relacionadas ao lixo zero. no site da associação mineira de supermercados também não vi nada sobre o assunto. mas em breve, por causa da lei 12.305, todos serão obrigados a se preocupar com isso.

 

4) luciana nascimento, brasil, mesa brasil

mesa brasil sesc

entre janeiro e agosto de 2015, o mesa brasil distribuiu 30.137.819 kg de alimentos!

eu nunca tinha ouvido falar no mesa brasil e fiquei encantada! no começo de sua apresentação, a luciana falou sobre um dado tristíssimo: cerca de 64% do que é plantado no brasil é perdido ao longo da cadeia produtiva. são quase 2/3 do total de alimentos, um absurdo, ainda mais se a gente pensar na quantidade de gente passando fome que existe em todas as regiões do nosso país. luciana reforçou que em santa catarina, que faz parte do chamado “sul maravilha”, também há pessoas que sofrem com a falta de comida.

em seguida, ela falou sobre o mesa brasil, iniciativa do sesc que começou em 1994 em são paulo, foi se espalhando por outros estados e desde 2003 atua em todo país. o programa se baseia no conceito de colheita urbana, em que alimentos ainda próprios para consumo mas fora dos padrões de comercialização são recolhidos pelo sesc e distribuídos para instituições sociais cadastradas, que repassam a famílias necessitadas. as doações são feitas por entidades públicas e privadas, como o angeloni, por exemplo. o sesc conta com profissionais que verificam a qualidade dos alimentos, para que tudo seja feito com muita segurança e sem desperdício.

pelo site do mesa brasil, é possível conhecer mais sobre o programa, acessar notícias relacionadas e se informar sobre como ser voluntário.

o curioso foi que eu, que nunca tinha ouvido falar no programa, no dia em que voltei a bh dei de cara com uma paredona com o logo do mesa brasil ali no começo da contorno, ao lado dos viadutos que ligam o centro à zona norte da cidade. e no sábado (07/11) fui ao supermercado e fiquei sabendo que era o dia nacional da coleta de alimentos, uma iniciativa com apoio do mesa brasil.  exemplo de que é só a gente começar a prestar atenção em uma coisa pra ver que, na verdade, ela sempre esteve ali.

 

5) edison miranda, brasil, olimpo compostagem

edison miranda, olimpo compostagem

edison miranda, fundador do olimpo

outra iniciativa linda linda que conheci no fórum. o edison é enfermeiro especializado no tratamento de dependentes químicos e fundador do olimpo, um sítio que abriga moradores de rua dependentes em tratamento em são pedro de alcântara, pertinho de florianópolis. em 2000, edison implementou a compostagem no olimpo, como uma atividade para auxiliar nas despesas do lugar.

ele disse que em floripa há cerca de 650 moradores de rua, muitos deles dependentes químicos, e que no verão estima-se que a cada dia cheguem outros 30. no olimpo, os dependentes em tratamento são abrigados e trabalham com a compostagem. edison falou que seu objetivo principal é ajudar essas pessoas e que a compostagem é o instrumento utilizado para financiar o tratamento. depois de pronto, o adubo orgânico de alta qualidade produzido no sítio é ensacado e vendido, e a renda obtida é utilizada para pagar as despesas do local e do tratamento dos internos.

desde a fundação do olimpo, principalmente depois da lei 12.305 e o programa supermercado lixo zero (da acats), o volume de resíduos orgânicos doados aumentou tanto que, atualmente, a instituição chega a recusar novas doações, porque não tem estrutura para receber tanto material.

como se a compostagem em si já não fosse algo tão legal, foi muito bonito ver a paixão com que o edison fala do seu trabalho. seria perfeito se municípios copiassem esse tipo de ideia e incluíssem em seus planos de gerenciamento de resíduos sólidos (pgrs) sítios como o olimpo :)

 

* amanhã vou contar o que steven chiv, de são francisco (eua), e sandra nordstrom, da suécia, falaram sobre o que tem sido feito em seus países em relação à redução do lixo.

 

semana lixo zero – V fórum internacional varejo lixo zero (parte 1/4)

semana lixo zero

passei uns dias em florianópolis (<3) e enquanto estava lá fiquei sabendo, totalmente por acaso, que estava acontecendo a semana lixo zero, com eventos em algumas cidades brasileiras, incluindo floripa. soube depois de uns dias e acabei perdendo algumas atividades interessantes, mas vi que no dia seguinte (27/10) aconteceria o V fórum internacional varejo lixo zero.

era um evento promovido pela associação catarinense de supermercados (acats), o que poderia causar alguma desconfiança, mas:

1 – era aberto ao público;

2 – era gratuito;

3 – chovia sem parar em floripa;

e 4  – o tema me interessava bastante.

então, arrastei minha mãe (<3) comigo e passamos a terça-feira num auditório no centro da cidade. e, olha, foi melhor do que a gente esperava!

foram nove palestras muito boas, feitas por brasileiros, suecos e norte-americanos. vou falar um pouco sobre cada uma, mas achei melhor dividir em quatro posts pra não ficar um texto gigante e cansativo. então, hoje conto um pouco sobre as duas primeiras:

 

1) pal martensson, suécia, zero waste europe

pal martensson

pal martensson, do zero waste europe (foto do instagram dele)

simpático, pal falou sobre a necessidade urgente de se reduzir a quantidade de resíduos descartados no mundo. segundo ele,

“waste is not waste. it’s resources, products and possibilities.”* – pal martensson

*”desperdício não é desperdício. são recursos, produtos e possibilidades”.

pal mostrou fotos de uma praia maravilhosa que ele havia visitado recentemente em bali. de um lado, aquela paisagem linda mas, de outro, pilhas de lixo, principalmente plástico. o nome do lugar? dreamland beach.

mas ele também destacou algumas iniciativas para reduzir a queima e o envio de lixo para aterros, como nas filipinas, onde foi criada uma lei (clean air act) que baniu a incineração de resíduos sólidos em 1999 e, em 2000, uma outra lei (ecological solid waste management act) instituiu um programa de gerenciamento ecológico de resíduos sólidos com a criação de MRFs (materials recovery facilities). os MRFs são locais que recebem, separam, processam e armazenam materiais recicláveis e compostáveis de maneira ambientalmente adequada.

outra questão bem interessante que pal abordou, ainda que rapidamente, foi o papel do design de produtos, que deve considerar materiais e processos utilizados de forma a gerar a menor quantidade possível de lixo durante todo o ciclo de vida dos objetos. outra frase muito significativa em sua palestra, e que deveria ser repetida exaustivamente aos alunos dos cursos de design, foi a seguinte:

 

“if a product can’t be reused, repaired, rebuilt, refurbished, refinished, resold, recycled or composted, then it should be restricted, redesigned, or removed from production.” *- pal martensson

*”se um produto não pode ser reutilizado, reparado, reconstruído, remodelado, reacabado, revendido, reciclado ou compostado, então ele deveria ser restringido, reprojetado ou removido da produção”.

pal ainda lembrou que o grande culpado pelo excesso de lixo produzido pela humanidade é o alto nível de consumo e que a publicidade tem uma grande responsabilidade sobre isso, pois o tempo inteiro fala pra gente comprar mais, associando os objetos à construção das nossas identidades. para o sueco, o “i shop therefore i am” (compro, logo, existo) deve ser substituído pelo “i sort therefore i am” (separo, logo, existo). em tempos de aplicativos pra tudo que a gente imagina, pal brincou que nenhum deles faz a reciclagem pra gente e que, portanto, se queremos um planeta lixo zero, temos que usar nossos próprios cérebros e mãos.

 

2) andré vilhena, brasil, cempre

 

ciclo da coleta seletiva municipal - cempre

fonte: cempre (clica pra ver grande!)

o cempre (compromisso empresarial para a reciclagem), que eu não conhecia, é uma instituição sem fins lucrativos, com sede em são paulo, que foi fundada em 1992 (na época da rio 92) e tem como objetivo promover a reciclagem. apesar de ter entre seus associados um monte de empresas nem um pouco sustentáveis (como coca-cola, mcdonalds, nestlé, unilever etc.), me pareceu uma iniciativa bastante comprometida com a disseminação de informações relacionadas ao gerenciamento de resíduos sólidos.

andré falou sobre a importância da lei 12.305, que institui a PNRS – política nacional de resíduos sólidos. ela ficou parada no congresso por 20 (vin-te!) anos e só em 2010, durante o segundo governo do lula, foi sancionada. é essa lei que determina a responsabilidade conjunta de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes sobre os resíduos de produtos fabricados/comercializados; é ela que fala sobre o papel fundamental dos catadores e suas cooperativas no processo de reciclagem; foi ela que determinou a proibição dos lixões no brasil; é ela que prevê que os municípios desenvolvam planos de gestão de resíduos sólidos (PGRS). dá pra perceber porque nossos políticos enrolaram tanto tempo para aprová-la, né?

segundo andré, existem mais recursos disponibilizados pelo governo federal do que projetos consistentes desenvolvidos pelos municípios brasileiros. é vergonhoso: muitos planos apresentados são ctrl+c / ctrl+v de outros planos e os responsáveis muitas vezes não se dão ao trabalho de trocar os nomes das cidades.

andré também falou sobre a urgência em se reduzir o volume de resíduos enviados para os aterros e na importância que cada cidadão tem nessa cadeia. de acordo com ele, os governos municipais podem, por exemplo, prever em seus planos a definição de multas para quem não separar adequadamente seus resíduos domésticos. na minha opinião,  considerando que muita gente só presta atenção nas coisas quando dói o bolso, seria uma ótima medida. mas já pensou na chiadeira que seria? duvido que prefeitos e vereadores tenham coragem de implementar esse tipo de cobrança.

 

* no post de amanhã: as apresentações de gilberto nascimento, luciana nascimento e edison miranda sobre iniciativas bem legais que já acontecem no brasil :)

 

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