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semana lixo zero – v fórum internacional varejo lixo zero (parte 4/4)

hoje termino a série sobre o v fórum internacional varejo lixo zero, que aconteceu no dia 27/10/2015 em floripa. as duas apresentações finais foram as menos interessantes, mas depois delas o microfone foi aberto ao público e surgiram algumas boas discussões, que eu conto ainda neste post:

8) leslie lukacs, estados unidos, l2 environmental

leslie é da califórnia e tem uma empresa de consultoria em gerenciamento de recursos, lixo zero e meio ambiente. ela falou praticamente o tempo inteiro sobre o sucesso das ações do angeloni e em como a experiência da acats com o programa supermercado lixo zero é exemplo em palestras que ela dá nos estados unidos.

além disso, destacou que no brasil nós temos o costume de esperar que o governo resolva as coisas por nós, e que podíamos aprender a não dependermos tanto dele para dar início a atitudes importantes para o meio ambiente e nosso cotidiano. não deveríamos, por exemplo, esperar uma lei que multe quem não separa o lixo adequadamente para começarmos a utilizar corretamente as lixeiras de recicláveis ou fazermos compostagem em casa. nesse ponto, concordo com ela. e você?

 

9) rodrigo sabatini, brasil, instituto lixo zero brasil

rodrigo começou sua apresentação falando sobre o papa francisco e o impacto positivo que a encíclica sobre o meio ambiente, publicada em junho deste ano, pode causar no mundo. mas confesso que, enquanto o rodrigo falava sobre o quanto é católico e em como o papa é fenomenal, me distraí um pouco. de qualquer maneira, mesmo não sendo religiosa, considero muito significativo que finalmente a igreja católica tenha se manifestado sobre o assunto e espero, de verdade, que a encíclica possa ajudar na conscientização de mais gente no mundo.

em seguida, rodrigo passou a falar sobre como florianópolis tem se destacado na preocupação com a destinação do lixo e citou a que cidade tem a maior concentração de campos de compostagem no brasil. ele também falou rapidamente sobre o projeto lixo zero do colégio catarinense, um dos mais tradicionais de floripa. seria tão legal se mais colégios no brasil adotassem projetos como esse… procurei rapidinho no google e parece que são poucos os exemplos (infelizmente, não encontrei nenhum em bh), mas acho (espero!) que aos poucos a quantidade vai aumentar :)

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alguns palestristas do fórum respondendo às perguntas. da esquerda para a direita: steven chiv, gilberto nascimento, sandra nordstrom, rodrigo sabatini, andré vilhena e leslie lukacs.

alguns palestristas do fórum respondendo às perguntas. da esquerda para a direita: steven chiv, gilberto nascimento, sandra nordstrom, rodrigo sabatini, andré vilhena e leslie lukacs.

quando o rodrigo terminou sua fala, o microfone foi aberto para que o público fizesse perguntas. não fiquei até o final, mas anotei duas coisas que achei mais interessantes:

  • alguém questionou que se diminuíssemos o consumo de novos produtos, muita gente ficaria desempregada. a resposta: não é bem assim, porque seria criado um novo mercado de serviços, com pessoas e empresas especializadas em consertar e dar nova utilidade para objetos que pararam de funcionar ou que, por algum outro motivo, não cumprem mais sua função inicial. a pessoa que respondeu (não me lembro quem foi) reforçou a necessidade de mudarmos nossa mentalidade e pararmos com essa mania louca de comprar novidades sem parar. em algum momento, a sandra nordstrom (the good tribe) deu o exemplo de um serviço de utilização de roupas de luxo que existe na suécia e funciona mais ou menos como o netflix: a pessoa paga uma mensalidade e tem direito a utilizar roupas do acervo da empresa por um período determinado. algo como as lojas de aluguel de roupas de festa que existem no brasil, mas para pessoas que utilizam essas roupas com mais frequência. o rodrigo sabatini também falou que a philips está fazendo uma experiência com a venda não de lâmpadas, mas de serviço de iluminação.
  • uma pessoa questionou ao gilberto nascimento (angeloni) por que eles não vendem mais frios a granel, já vem tudo fatiado em embalagens fechadas e pesadas. a cristal, do um ano sem lixo, também já tinha abordado essa questão antes, mas falando especificamente sobre a dificuldade em se encontrar produtos líquidos para compra a granel. uma pessoa que estava atrás de mim se irritou muito com essas colocações, dizendo que a legislação brasileira não permite que tudo seja vendido a granel, e que os supermercados não têm culpa disso. só faltou dizer que a culpa era da dilma. mas o gilberto foi mais paciente e explicou o que acontece: se as pessoas pararem de comprar as embalagens de frios já fatiados e exigirem a venda a granel, os supermercados vão se virar pra atendê-las. ele falou claramente: quando o consumidor começar a dizer NÃO a algo, os supermercados vão deixar de agir daquele jeito ou de vender aquele produto. é uma questão de tendência de comportamento, e o consumidor tem que exigir o que quer. só assim os comerciantes vão mudar suas atitudes e cobrar dos políticos mudanças nas leis atuais. é aquela coisa: se dói no bolso, a coisa muda de figura.

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mas é claro que nem tudo foi perfeito no fórum. eu realmente tinha a expectativa de que não se tratasse só de falas sobre o lixo zero, mas de exemplos práticos, e estava doida pra ver como seria um evento organizado de forma a não produzir lixo. enquanto ia pra lá, fiquei viajando em como seriam os lanchinhos entre os intervalos, coisas desse tipo. até que veio a realidade. já na entrada, nos entregaram uma pastinha com material impresso:

material entregue a cada participante do fórum

material entregue a cada participante do fórum: precisava de tudo isso?

podiam mandar quase tudo por email, né, e entregar, no máximo, só o bloquinho e a caneta. quanto ao lanchinho, também decepcionou: café e água eram tomados em copos de isopor, que provavelmente foram direto pro aterro, já que o material só interessa às empresas de reciclagem em grandes quantidades. entre os papeis entregues na pastinha havia uma folha para avaliação do evento, então aproveitei pra deixar essas críticas. espero que nas próximas edições os organizadores procurem aplicar o lixo zero pra mostrar aos participantes que essas pequenas ações também importam muito.

mas fiquei muito feliz com a coincidência de estar em floripa bem no dia desse evento, porque, como já disse, foi muito melhor do que eu esperava. conheci iniciativas muito, mas muito legais, vi pessoas, empresas e governos que têm se empenhado em alcançar o objetivo de não enviar lixo para aterros e ainda conheci a cristal :)

pra quem quiser ver um resumo do evento, encontrei no youtube um vídeo promocional feito pela própria acats, que promoveu o fórum. tem menos de cinco minutos. e dá pra brincar de onde está wally e me procurar!

semana lixo zero – V fórum internacional varejo lixo zero (parte 1/4)

semana lixo zero

passei uns dias em florianópolis (<3) e enquanto estava lá fiquei sabendo, totalmente por acaso, que estava acontecendo a semana lixo zero, com eventos em algumas cidades brasileiras, incluindo floripa. soube depois de uns dias e acabei perdendo algumas atividades interessantes, mas vi que no dia seguinte (27/10) aconteceria o V fórum internacional varejo lixo zero.

era um evento promovido pela associação catarinense de supermercados (acats), o que poderia causar alguma desconfiança, mas:

1 – era aberto ao público;

2 – era gratuito;

3 – chovia sem parar em floripa;

e 4  – o tema me interessava bastante.

então, arrastei minha mãe (<3) comigo e passamos a terça-feira num auditório no centro da cidade. e, olha, foi melhor do que a gente esperava!

foram nove palestras muito boas, feitas por brasileiros, suecos e norte-americanos. vou falar um pouco sobre cada uma, mas achei melhor dividir em quatro posts pra não ficar um texto gigante e cansativo. então, hoje conto um pouco sobre as duas primeiras:

 

1) pal martensson, suécia, zero waste europe

pal martensson

pal martensson, do zero waste europe (foto do instagram dele)

simpático, pal falou sobre a necessidade urgente de se reduzir a quantidade de resíduos descartados no mundo. segundo ele,

“waste is not waste. it’s resources, products and possibilities.”* – pal martensson

*”desperdício não é desperdício. são recursos, produtos e possibilidades”.

pal mostrou fotos de uma praia maravilhosa que ele havia visitado recentemente em bali. de um lado, aquela paisagem linda mas, de outro, pilhas de lixo, principalmente plástico. o nome do lugar? dreamland beach.

mas ele também destacou algumas iniciativas para reduzir a queima e o envio de lixo para aterros, como nas filipinas, onde foi criada uma lei (clean air act) que baniu a incineração de resíduos sólidos em 1999 e, em 2000, uma outra lei (ecological solid waste management act) instituiu um programa de gerenciamento ecológico de resíduos sólidos com a criação de MRFs (materials recovery facilities). os MRFs são locais que recebem, separam, processam e armazenam materiais recicláveis e compostáveis de maneira ambientalmente adequada.

outra questão bem interessante que pal abordou, ainda que rapidamente, foi o papel do design de produtos, que deve considerar materiais e processos utilizados de forma a gerar a menor quantidade possível de lixo durante todo o ciclo de vida dos objetos. outra frase muito significativa em sua palestra, e que deveria ser repetida exaustivamente aos alunos dos cursos de design, foi a seguinte:

 

“if a product can’t be reused, repaired, rebuilt, refurbished, refinished, resold, recycled or composted, then it should be restricted, redesigned, or removed from production.” *- pal martensson

*”se um produto não pode ser reutilizado, reparado, reconstruído, remodelado, reacabado, revendido, reciclado ou compostado, então ele deveria ser restringido, reprojetado ou removido da produção”.

pal ainda lembrou que o grande culpado pelo excesso de lixo produzido pela humanidade é o alto nível de consumo e que a publicidade tem uma grande responsabilidade sobre isso, pois o tempo inteiro fala pra gente comprar mais, associando os objetos à construção das nossas identidades. para o sueco, o “i shop therefore i am” (compro, logo, existo) deve ser substituído pelo “i sort therefore i am” (separo, logo, existo). em tempos de aplicativos pra tudo que a gente imagina, pal brincou que nenhum deles faz a reciclagem pra gente e que, portanto, se queremos um planeta lixo zero, temos que usar nossos próprios cérebros e mãos.

 

2) andré vilhena, brasil, cempre

 

ciclo da coleta seletiva municipal - cempre

fonte: cempre (clica pra ver grande!)

o cempre (compromisso empresarial para a reciclagem), que eu não conhecia, é uma instituição sem fins lucrativos, com sede em são paulo, que foi fundada em 1992 (na época da rio 92) e tem como objetivo promover a reciclagem. apesar de ter entre seus associados um monte de empresas nem um pouco sustentáveis (como coca-cola, mcdonalds, nestlé, unilever etc.), me pareceu uma iniciativa bastante comprometida com a disseminação de informações relacionadas ao gerenciamento de resíduos sólidos.

andré falou sobre a importância da lei 12.305, que institui a PNRS – política nacional de resíduos sólidos. ela ficou parada no congresso por 20 (vin-te!) anos e só em 2010, durante o segundo governo do lula, foi sancionada. é essa lei que determina a responsabilidade conjunta de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes sobre os resíduos de produtos fabricados/comercializados; é ela que fala sobre o papel fundamental dos catadores e suas cooperativas no processo de reciclagem; foi ela que determinou a proibição dos lixões no brasil; é ela que prevê que os municípios desenvolvam planos de gestão de resíduos sólidos (PGRS). dá pra perceber porque nossos políticos enrolaram tanto tempo para aprová-la, né?

segundo andré, existem mais recursos disponibilizados pelo governo federal do que projetos consistentes desenvolvidos pelos municípios brasileiros. é vergonhoso: muitos planos apresentados são ctrl+c / ctrl+v de outros planos e os responsáveis muitas vezes não se dão ao trabalho de trocar os nomes das cidades.

andré também falou sobre a urgência em se reduzir o volume de resíduos enviados para os aterros e na importância que cada cidadão tem nessa cadeia. de acordo com ele, os governos municipais podem, por exemplo, prever em seus planos a definição de multas para quem não separar adequadamente seus resíduos domésticos. na minha opinião,  considerando que muita gente só presta atenção nas coisas quando dói o bolso, seria uma ótima medida. mas já pensou na chiadeira que seria? duvido que prefeitos e vereadores tenham coragem de implementar esse tipo de cobrança.

 

* no post de amanhã: as apresentações de gilberto nascimento, luciana nascimento e edison miranda sobre iniciativas bem legais que já acontecem no brasil :)

 

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